Até que a morte os separe

Observou-lhe distanciando-se, os cabelos grisalhos começaram aparecer precocemente, sabia que era a causadora.

Sem remorsos, arrumou o batom pelo espelho do retrovisor do carro e descobriu que era capaz de perceber e ter intuições, mas a faculdade de compreender lhe faltava.

E a culpa nem sempre tem um culpado só. Assumiu o erro que lhe cabia.

Há muito quando chorou em seus braços sem motivos, intuitivamente sabia do fim lento.

E a cama não ficaria mais desarrumada pelo seu exagero leonino, nem os fios de cabelos longos se perderiam pelo lençol. E o cheiro que se misturava há tantos outros.

Mas o seu, tão seu, cheiro suave de um pecado sem precedentes não mais estaria lá.

Pensar assim, a deixava obscura em seu mundinho egoísta. Dispersa em suas próprias ideias.

Um sorriso traiçoeiro surgiu nos lábios quando deu partida e arrancou pisando fundo. Como se tudo que lhe atormentava fosse ficar para trás.

Fez de tudo para que esse fim logo tivesse fim.

E a dor foi amenizada por outros corpos…

Abriu a janela e atirou o último cigarro. Vício que o o novo Affair não tolerava.  Agora parecia que a mulher de pele branca e olhos grandes também tinha um coração.

Continuou a correr pela estrada como se quisesse chegar tão logo. A velocidade lhe excitava. Pernas longas e coxas à mostra. O decote do vestido escondia-se atrás do cinto de segurança. Mesmo assim, não tinha um caminhoneiro que não desviasse os olhos da estrada para admirar aquela vulto de mulher.

Um melancólico suspiro cresceu do seu peito, como aliviada, enfim livre, enfim sentimentos recíprocos. Não o deixaria escapar.

Ainda absorta em pensamentos confusos, esqueceu o salto no acelerador e a velocidade não diminuiu na curva.

Enquanto girava junto com o carro, debatendo-se como uma boneca, não apavorou-se com a morte que era nítida.

Sua intuição tinha vindo em forma de pesadelo. Não era hora de morrer.

Os caminhoneiros que ela deixou para trás, agora passavam,  atordoados com a cena.

Entre um amontoado de ferro a silhueta da mulher só podia ser reconhecido pelos cabelos, cobertos pelo próprio sangue.

Originalmente publicado 21/08/2011

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