Confessionário da Luxúria

Missa de domingo. Tão cedo que para mim era madrugada. Meus pais arrastavam-me até a igreja. Sentavam na primeira fileira enquanto eu me escondia na última. Ficava imaginando se tinham ideia do que eu me tornei e pretendiam me acalmar com preces repetidas e entediantes.

Quando achei que ia ouvir o padre conduzir palavras num sermão, vejo encostado perto da porta um amigo que há tempo não via. Um friozinho excitante arrepiou-me.

Fixei o olhar nele, até me avistar.

Sentou-se ao meu lado e sussurrou não tão baixo como deveria.

– Minha maluquinha preferida, tá mais gostosa que dá última vez e de vestido ainda, facilita as coisas não é?

Ele tinha essa liberdade, de falar assim…

Só lhe dirigi o olhar, para que entendesse onde estaríamos dois minutos depois. Saí e logo em seguida foi atrás de mim.

No confessionário, um cantinho apertado, protegido por cortinas, sujeitávamos ser vistos. Mas era o que nos fazia arriscar.

Ele sentou na cadeira que o padre usava para escutar as lamentações de um povo com devoção fingida, pensava eu. Muitas, daquela gente, levava consigo a prepotência e para aliviar um pouco a culpa, ajoelhavam-se frente a cruz e confessavam os mesmos pecados durante décadas. Quando saíam dali, estavam prontas para cometer outras transgressões.

Ainda sentado baixou as calças com certa dificuldade. Fiquei a admirar o nu perfeito de meu amigo. Levantei o vestido e empurrei a calcinha para o lado. Sentei já saracoteando em seu membro ereto, minha boca grudou na sua para sufocar nossos gemidos. O sermão do padre no altar falava sobre o sexo antes do casamento.

E a mistura de prazer e medo, nos fez chegar ao ápice rapidamente. Levantei, tirei a calcinha molhadinha e enfiei no bolso dele. Ajeitei meu vestido, cabelos e os peitos que tinham pulado para fora do decote. Beijei-o mais uma vez e voltei para meu banco. Como se nada tivesse acontecido.

Algumas mulheres que estavam prestando atenção na vida alheia, no momento na minha, olharam-me perplexas. Imaginando se realmente tive o atrevimento. Os cabelos desalinhados não lhes davam a certeza.

Mas eu tinha uma certeza, de boas samaritanas com pensamentos tão imundos como os meus, posando de um padrão mascarado, sabia eu, que a hipocrisia se escondia por trás de toda aquela podridão.

E eu, que sou toda defeitos e cheia de erros, mas sou eu. De todos os pecados, o único que eu contrario ás leis divinas é a luxúria.

Esbocei um sorriso despretensioso quando ele saiu do confessionário, ajeitando a camiseta por dentro da calça. E para minha surpresa, logo atrás uma daquelas que carregam o rosário no peito e quem mais censurou-me no comprimento do vestido e no tamanho do decote.

Confessou-me ele mais tarde.

Logo que saí do confessionário, a fanática em fazer sinal da cruz apareceu ameaçando nos entregar ao padre. Meus pais me dariam uma surra ali mesmo.

Calou a boca dela baixando as calças mais uma vez. E tudo não durou mais que cinco minutos. Propositadamente, enquanto a moça já satisfeita e muito nervosa tentava se vestir, entregou-lhe a calcinha que estava no seu bolso, a minha.

E a calçola perdeu-se no confessionário. Nunca soubemos se foi o padre que encontrou.

E agora a carola vai nas missas com um sorriso mais sagaz. E quando me observa entrando pela igreja, é com admiração.

*Dela (Espanhola). Uma personagem real, que me inspirou nesse conto. Cada vez que me conta uma das suas experiências, mas a comparo com o livro “A CASA DOS BUDAS DITOSOS” de João Ubaldo Ribeiro. E diferente da senhora de 68 anos que narra sua vida e nunca saberemos se ela existiu, a Espanhola só não existe, como vive intensamente!

ORIGINALMENTE PUBLICADO 27/09/2013

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