Também sei falar de amor

* Entre elogios, disfarçado, me censuram por meus contos quase sempre ter um fim cruel. Eu sei.

Agora, vou falar de AMOR.


Amores que me dizem, me impressionam e me sufocam, porque tê-los?

Se me entrego, me desdobro e no fim, me perco.


E não há verdades, nem coragem.

Levianos com minha sensatez

Ignoram a minha estupidez.


Dentro do carro, te esperei lendo um livro. Quando me dei de presente, a dúvida era entre Lolita e Madame Bovary. Mas optei pelo Os 120 Dias De Sodoma. Minha predileção pelo Bizarro e polêmicas nasceu comigo. Quando criança reunia os amigos para contar histórias de terror. Eram invenções, mas acreditavam nas minuciosidades de detalhes perversos. Mais tarde, percebi que a escolha, para o momento da minha vida, não foi a melhor. Vomitei muitas vezes, nessa leitura bizarra. Talvez Marquês de Sade, tivesse chocado, por mostrar o lado podre dos humanos. Da forma mais repugnante.

Mas não deixei de devorar romances como Madame Bovary e Lolita. Até minha maneira de amar, é diferente.


Tamborilei os dedos finos no volante, quase meio-dia e senti uma gota de suor escorrer entre meus seios. Mais fartos nos últimos dias. Não imaginava qual seria sua reação.


Apesar dos olhos de menino, não entregavam sua real idade. E o jeito de beijar o canto da minha boca foi o que me fez olhá-lo mais demoradamente. É que a vida me ensinou ser mais complexa. E que nos mínimos detalhes, segredos se ocultam. E escapar do controle, só na hora de amar.


Parei o carro longe da cidade. Queria uma conversa distante da loucura do dia a dia. Mais perto do canto dos pássaros, eu tinha a paz que precisava naquele momento. Controlei a emoção da voz. A voz que tinha novidades para lhe dizer. A voz que você gostava de escutar no fim da noite, lhe seduzindo na sua canção predileta. “How Deep Is Your Love” – Bee Gees. Sempre lhe disse que tu és um velho num corpo de menino. E você ri pensativo. Porque sabe que é verdade! Quem aos 15 anos já mora sozinho, paga as contas e sustenta um Pastor Alemão. 

Cinco anos mais tarde nos conheceríamos no bar que uma vez por semana eu soltava a voz nessa canção.

Fala de um amor profundo, de um mundo de insensatos e somos eu e você. É o que importa.

Sou sistemática e você perfeccionista. E isso nos faz um casal de diferença grande de idade mais esquisito, mas o mais perfeito. E mais cinco anos se passaram. Agora nos seus 25 anos pondera cada palavra antes de falar e me enche de surpresas. Mentalidade de um homem de verdade, desses quase em extinção.


Eu iniciei nossa conversa cantando Rita Lee. 

” Amor é um livro

   Sexo é esporte

   Sexo é escolha 

   Amor é sorte”


Você não me deixou terminar, tão pouco contar a novidade. Me roubou um beijo e com a mão sobre meu ventre me surpreendeu mais uma vez. Já sabia. 

Observador. Atento. Uma vida a dois, nos leva a uma transparência quase absoluta. Descobrimos caprichos e a rotina do outro. Nos entregamos e por vezes, irritamos. Ou nem tanto. 


Esperou pacientemente que eu confirmasse sua suspeita. Seus olhos e o sorriso largo encharcado pelas lágrimas, surpreendeu-me com a alegria exagerada. Me senti amada.

E ali mesmo nos possuímos. Com menos agressividade que o de costume.

 

Eu sei, para você o final feliz começa tradicionalmente com a família perfeita.

E eu jamais me encaixaria na sublimidade. Não tenho limites para me entregar, desde que minha liberdade não esteja a perigo. E ela estava.


Não podemos ter tudo que desejamos, lhe dei a bênção de ser pai. Mais que isso, sufocaria minha necessidade de ser eu. Estava na hora da mudança. Não o despejei da minha vida, nem do meu coração. Só do convívio debaixo do mesmo teto. Pela primeira vez não me compreendeu. Seu amor não era incondicional. E talvez eu seja mais egoísta que afetuosa. Nada impressionável e muito impressionante.


“Entre as águas que me deixaram nua e quase sua. Mergulhei sem saber, qual seria meu fim! E mesmo assim… Eu era sua, de um outro jeito, mas eu era só sua…”

Ausência de 7 meses. Carência tolerante e relevante. De turbilhões de pensamentos. Idéias delirantes. Raiva incompreendida. 


Você chegou, quando nossa criança já respirava o mesmo ar que nós. Notei o semblante marcado por sulcos recentes. A ruga mais profunda entregava-me que enfim, eu tinha seu entendimento.


Beijou minhas mãos e num abraço tão apertado, como meu coração. Pediu perdão.

Corremos riscos todos os dias. E eu precisei aventurar-me para ter a certeza.

Certeza do “para sempre” e não do “momento”.

Meu amor por você, mesmo cruel, te revelou que sua certeza não era a mesma que a minha. 

Encostou os lábios na nossa menina demoradamente, agora único vínculo entre nós.


E no instante seguinte, já sorrindo, continuou seu caminho de mãos dadas e não com as minhas…

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ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 24 DE ABRIL DE 2014

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