Fragmentos de um Réveillon

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E quando o fim de ano chega, me parece tudo tão nostálgico. Talvez o clima natalino estampado em cada esquina me faça lembrar que nunca tive infância.

A única boneca de pano eu dividia com a irmã mais nova e entre brincar de esconde-esconde, me escondia do pai, se é que pode chamar assim, alguém que deseja da forma mais repugnante a própria filha.

Meu vestidinho todo corroído pelas traças, sujo…  Porque era com ele que eu passava horas na rua para não ter que voltar para casa.

A mãe, mais envelhecida do que deveria aparentar, passava o dia limpando a sujeira dos outros enquanto seu marido se divertia.

12 anos. E eu ainda queria brincar de boneca quando senti um corpo estranho entre as pernas. Imaginava os pais das minhas amigas fazendo o mesmo com elas. Nojo de quem era para sentir amor.

Cresci com sentimentos distorcidos de família. Todo fim de ano era assim, quando os fogos avançavam agressivamente no céu, as imagens se repetiam. Enquanto famílias trocavam presentes, ele me enchia de seu líquido repugnante.

Tornei-me mulher e trouxe comigo do passado um ódio com vontade de vingança. Quando ele ainda me tinha pelo medo eu sufocava a verdade.

18 anos. Último Réveillon que sua mão deslizou pelo meu corpo. Num único movimento, no impulso da recusa, enterrei junto com minha ira. E a lâmina brilhou antes de atravessar o coração. Abandonei o corpo nu e nunca mais souberam de mim.

De vez em quando, um homem, sempre de idade avançada é encontrado com o pênis mutilado num motel qualquer…

“A vida nos molda e muitas vezes liberta os monstros que existem dentro de nós”.

Originalmente publicado 27/12/2011

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