A tal da felicidade virtual

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Antes mesmo do amanhecer, quando o sol ainda nem apareceu no horizonte Nicole já se conectava ao seu celular, ritual diário. E isso significava a todas as redes sociais possíveis.

Vício atual.

O bebê parou de resmungar para encher o pulmãozinho e lamentar num choro alto para se fazer lembrado.

Já era mulher madura, mas a maturidade estava só nos anos que depois dos trinta passam mais rápido. E para Nicole muito mais.

Sua prioridade naquele momento era arrumar os peitos numa selfie e postar com aquele sorriso apático. Queria aproveitar que estavam lindamente fartos de leite. Foi quando sentiu o líquido escorrer do bico do seio, lembrou-se de Dudu, que cansado de chorar adormeceu.

O marido, de fala mansa e pouca conversa. Tinha a reprovação nos olhos, mas viver de aparência e ostentar a vida perfeita também lhe era muito atraente.

Desde sempre, a humanidade importa-se muito com opiniões alheias e acreditam que mostrar felicidade a trará para perto de si. Mostrar o que não se tem, ser o que não se é. Talvez só atraía a inveja que não se quer!

Nicole estava cansada. Das noites mal dormidas às brigas diárias com o marido. Levava a vida fazendo comparações, fundando-se em felicidades virtuais e afundando-se consequentemente em desgostos. Impossível convergir a realidade com o conto de fadas do mundo virtual.

Enquanto seu momento materno e lindo de amamentar, iam-se embora como se fosse um peso em sua vida.

Uma amiga sorrindo e no fundo a Catedral de Notre-Dame em Paris. Outra que nem era tão amiga mas estava na sua lista de contatos, ostentava o biquini novo nas praias do Nordeste. Tinha ainda o pessoal da época da faculdade reunidos num encontro na pizzaria que tanto queria ir. Observava depressiva todas aquelas imagens em sua timeline, como num filme “Eu sou feliz e você?”

Enquanto estava lá, cheirando a leite!

Segurou Dudu no colo, abriu a blusa e deixou os seios à mostra. Talvez admirava-se ver seu bebê mexer a cabecinha à procura do peito. Talvez gostasse da sensação de sentí-lo lhe sugando. Talvez amasse tudo aquilo muito mais do que queria.

Porque num mundo que regras são impostas por uma sociedade fútil e de valores inversos, não se enxerga a felicidade nas coisas mais simples…

A foto um tanto sensual no perfil tinha a frase ” É que a felicidade invade nossas vidas todos os dias!”

A vida perfeita. A perfeita vida hipócrita.

Depois da foto, nada mudou. O vazio ainda continuou no peito oprimido e no sorriso pequeno.

Procurou a felicidade no carro importado, na casa com piscina, na jóia, naquele sapato da última coleção, no peito siliconado. No egocentrismo, que não lhe permitiu olhar para baixo e descobrir que ninhava em seu colo o que tanto procurava…

Originalmente publicado dia 12/10/2016

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