Destruída pela luxúria

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“Finjo, de batom nem sempre do mesmo tom, que está tudo bem, que sei andar de salto. Não caio e nem tropeço. Mas espero que até ao fim do dia, eu tenha pelo menos, um abraço.

Porque quando a madrugada surge, vem junto com o silêncio do meu corpo. E quando todos pensam que minha vida é farta de orgasmos.

Observo minha solidão pela janela. A lua tão cheia, espreitá-la sozinha não a torna linda como de fato é”.

Palavras tão bem encaixadas foram escritas pela mulher do apartamento 203, como era conhecida.

Nunca a encontrei pelos corredores do antigo prédio, mas a escutava chegando às 3 horas da madrugada nos fins de semana. Minha insônia permitia que eu acompanhasse seus ruídos. As vezes eram intensos e outros pareciam lamentos. Mas o último que escutei, foi diferente. Veio alto, cheio de dor e logo em seguida abafado.

Não estranhei, já que era comum seus escândalos.

No dia seguinte percebi uma movimentação diferente pelo prédio, subi até o andar de cima e juntamente com outros vizinhos curiosos me deparei com a imagem chocante. Chegamos antes da polícia. Enfim, conheci a vizinha que tanto me deixou curioso. A porta estava aberta, fomos entrando e no seu quarto um corpo esquartejado na cama. O lençol manchado com seu sangue, nas paredes vestígios de quem tentou livrar-se. Não demorei o olhar sobre seu corpo, mas foi o suficiente para ver que tinha cabelos negros e longos. Nua e de salto.

Lembrei do grito de sofrimento. Senti uma vertigem e me retirei. Mas antes de sair completamente daquele ambiente de horror, minha atenção foi atraída para uma agenda jogada a um canto da sala. Juntei discretamente e levei comigo. Nem sei o porquê, num impulso pela curiosidade talvez. As páginas amassadas, tive a sensação que muitas vezes foram lidas e relidas, manchadas por suas lágrimas. Comecei a ler até a última palavra escrita, imaginando com a riqueza de detalhes.

Alguns trechos de suas narrações chamou-me mais a atenção.

“Meu dia nunca teve rotina, aromas de cafés da manhã sempre me trouxeram na lembrança minha adolescência. Cedo perdi a dedicação materna.

Logo percebi que minha melhor companhia seria a solidão. Em idade madura, meu corpo ainda não revela o peso dos anos bem vividos. Meus olhos não tem só a beleza da vivacidade, mas também uma maturidade mordaz.

Mulheres assim… Seduzem facilmente homens de todas as idades”.


“Murilo, pouca idade, mas o suficiente para saber como segurar um quadril de mulher. Nunca tive paciência para ensinar sacanagens, mas Murilo sabe exatamente do que eu gosto. E consegue me deixar exausta”.

“E os de 30 anos, ainda solteiros, são um tanto perdidos. Ao mesmo tempo que querem uma relação que possa lhes dar filhos. Seguram a tal da “liberdade” afastando qualquer pretendente a incumbência de esposa. Beto, tem a vaidade cravada nos olhos azuis. Nosso sexo perfeitamente agressivo, criativo, devora-me de todo jeito e trejeitos.

“Carlos, fatalmente meu preferido. Singular, maduro, com pouco mais do dobro da idade de Murilo, ainda assim, tem músculos tão bem definidos quanto. Sem a mesma vitalidade no sexo, mas sou compensada na sua habilidade com as mãos e a atenção do antes e depois. Só com ele eu tenho a segurança, o sossego de poder deitar no colo de um homem por horas, no silêncio, sem urgência. E ainda assim perceber sentimentos muito além da troca de energias orgásticas”.

“Cada um tem um pouco do que eu desejo. Completam-me separadamente. Assim, sem obrigação efetiva, ainda tenho minha preciosa liberdade. Mas, há sempre um mas… Nos dias cinzas, quando a chuva parece molhar toda a alma. Eu tenho que saciar-me com minha própria companhia”.


“Há perigos na luxúria, que nossa mente pouco percebe. Instiga fantasmas onde não existem. Cria fantasias, despertando monstros dentro de nós.”

Nesse último trecho escrito no dia de sua morte, percebi que as entrelinhas diziam que ela sabia do perigo que existia.

Talvez um dos personagens do seu diário, amantes da vida real fosse o assassino.

O apartamento continua fechado, nenhum parente apareceu. Há madrugadas que acordo em sobressalto, com a impressão de escutar seus gritos ecoando pelo prédio…

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