Vestida de Blues

Foto de Maurício Mascaro no Pexels

“Tantos homens me desejam e nenhum me seduz. Sedução não é apaixonar-se. Mas esse dia sai vestida de sedução e pronta para matar, em caso de necessidade.”

Tamborilava os dedos sobre a mesa de bar. Impaciente.

O copo nunca vazio, levou aos lábios tantas vezes eu observei seu rosto.

Excitou-me sua ansiedade. O ambiente a meia luz, o cheiro de pessoas alcoolizadas ao som do blues e os Posters espalhados pelas paredes prendiam minha atenção.

Jimi Hendrix sorriu para mim depois do terceiro copo de Whisky. Levantei-me como uma gata no cio.

Não pude conter meu corpo, que movia-se como orgasmos múltiplos ao som de Janis Joplin.

Mercedes Benz me encorajou a soltar a voz.

Olhei mais uma vez e ele cantava comigo.

Aproximei seu charme ao meu e arranquei o cigarro de seus lábios com um beijo. Odeio o cheiro da nicotina, mais seu perfume incomodava mais meus sentidos.

Seduzida eu? Porque os olhos do homem a minha frente não me davam a atenção que estava acostumada e nem seus lábios me pediam mais um beijo.

Algo estava errado. Cai na armadilha que eu mesma preparei.

Seus olhos brilharam como os meus, mas a ira era só minha.

A ruiva de cabelos cacheados atravessou o bar deslizando com suas pernas longilíneas num vestido bastante generoso.

Direta no meu alvo, o cumprimentou com um beijo sem pudor.

Fiquei como um abutre ao redor da caça. Não ia desistir, nem que a ruiva tivesse que entrar na história para eu conseguir o que desejava.

Na pista, as luzes coloridas anunciavam que era hora de continuar minha dança. Fechei os olhos e deixei o corpo falar por mim. Mostrando toda e qualquer pretensão.

Enfim tinha conseguido a atenção, troca de olhares deles, entre cochichos me seguiram pela pista.

Aproximaram seus corpos ao meu. Senti lábios lambuzados de batom procurando os meus. Não era exatamente o que queria, mas retribui fingindo gostar.

Ele agarrado ao meu quadril inalava o perfume de meus cabelos, quando virei-me procurando mais uma vez sua boca.

E naquela dança orgástica. Não nos incomodamos com a platéia.

Só sai do êxtase quando a música parou. Estava ocupada demais sendo bolinada.

O globo de iluminação, sem aviso prévio desprendeu-se do teto e caiu direto na cabeça da ruiva.

Senti o sangue espirrar em minhas costas. Virei-me em câmera lenta e a cena me causou náuseas. Esparramada no chão, seu cabelo ainda mais vermelho. Em volta as pessoas apavoradas, ele em estado de choque e eu… eu não consegui me conter, um sorriso me escapou…

” Imaginação não há limites. Transformar um fato verdadeiro em conto, juntar o real ao abstrato. Porque confundir me atrai. De tudo, só posso dizer que realmente presenciei numa balada em Curitiba um globo de iluminação despencar na cabeça de uma moça.”

Originalmente publicado 02/11/2015

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